Antes desprezadas, ações de bens de capital bombam na bolsa

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O debate sobre a industrialização ganhou destaque no Brasil a partir da década de 1950. O país abraçou o diagnóstico preconizado da CepalL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) para o subdesenvolvimento de algumas economias.

O sistema desigual de relações entre países do Centro e da Periferia seria o responsável por diversos obstáculos ao desenvolvimento econômico dos países periféricos: a deterioração dos termos de troca; o desequilíbrio interno; a baixa qualidade dos empregos; a excessiva especialização econômica em produtos primários, como agricultura e mineração; e a grande heterogeneidade das forças produtivas.

Agência Brasil/EBC
Agência Brasil/EBC

A fim de superar essas dificuldades, seria necessário incentivar a industrialização, baseando-se no planejamento pelo qual o Estado assumiria papel de agente ativo no desenvolvimento econômico e social.

A falta de capital suficiente para a empreitada fez com que os investimentos se sustentassem no tripé: estatais, capital privado nacional e capital privado externo.

Embora tenha contribuído para o desenvolvimento do parque industrial brasileiro, esse modelo acabou por gerar efeitos indesejados como inflação, déficit público, baixa produtividade e dívida externa. Após algumas moratórias e depois do boom de commodities do início do século, o endividamento externo deixou de ser um problema. Contudo, os demais – em maior ou menor intensidade – continuam prejudicando a economia brasileira.

A composição do nosso principal índice acionário, o Ibovespa, vem refletindo esse debate ao longo do tempo. O setor de bens de capital, que chegou a representar cerca de 40% do índice no início da década de 90, hoje é de apenas 2%.

Embora a desindustrialização seja uma tendência em outros países, o desequilíbrio das contas públicas tem afetado indiretamente o desenvolvimento da indústria no caso brasileiro. A alta inflação, gerada em parte pelo elevado déficit público, foi combatida com juros elevados, o que elevava o custo financeiro dos investimentos e do capital de giro. Por sua vez, os juros elevados tiveram como efeito secundário a apreciação da moeda local, o que prejudicava as exportações de nossas manufaturas, bem como tornava os importados mais competitivos frente aos nacionais.

Logo, não é surpresa que apenas duas companhias do setor industrial estejam presente no Ibovespa atualmente: Embraer (EMBR3) e a de motores elétricos Weg (WEGE3).

Mas a chegada do novo governo, com um receituário mais liberal, pode alterar a dinâmica da economia. A expectativa do equilíbrio das contas públicas, com a adoção do teto de gastos e a aprovação da reforma da Previdência,contribuiu para reduzir os juros ao menor nível dos últimos anos: 4,25% ao ano. Esse novo patamar pode dinamizar os investimentos. Além disso, os juros baixos possuem efeito importante sobre a moeda brasileira. A estratégia de o especulador internalizar os recursos no Brasil para ganhar a diferença de juros pagos aqui e no exterior (tática conhecida como “carry trade”) deixa de fazer sentido, o que deprecia o câmbio, beneficiando as empresas industriais brasileiras tanto pelo canal da exportação quanto na perda de competitividade dos similares importados. Ao contrário do que ocorreu no governo Dilma, quando se tentou impor juros baixos e câmbio depreciado por intermédio de intervenções governamentais, essas duas variáveis agora obedecem às forças de mercado. Logo, tendem a ser mais sustentáveis.

É verdade que ainda faltam reformas para elevar a produtividade de nossa economia e outras igualmente importantes, como a tributária, bem como um crescimento mais vigoroso da atividade econômica. Mas o arcabouço macroeconômico de inflação, juros e câmbio é o melhor para a indústria nacional em décadas.

Apesar das condições adversas para as indústrias de bens de capital, existem sobreviventes na bolsa brasileira, além de Weg e Embraer: Indústrias Romi (ROMI3), Iochpe-Maxion (MYPK3), Tupy (TYPY3), Metal Leve (LEVE3), Marcopolo (POMO4) e Random (RAPT4), bem como as ilíquidas Fras-le (FRAS3) e Schultz (SHUL4).

Boa parte dessas companhias, que andava esquecida pelos investidores, começa a entrar no radar. Com exceção de Embraer, com desempenho acanhado, e Romi, que sobe muito desde 2015 (880%), as demais tiveram rally recente. WEGE3, RAPT4 e SHUL4 (426%) já batem com folga o Ibovespa nos últimos cinco anos, mas POMO4, LEVE3, TUPY3 e FRAS3 ainda não.

Caso essa nova configuração macroeconômica persista e as reformas microeconômicas e a tributária avancem, nomes que andavam esquecidos tanto pela maioria das corretoras quanto pelas gestoras se tornarão novamente possíveis opções de investimentos, como ocorria nas décadas de 1970 e 1980.

Fonte: André Rocha (Analista de ações certificado pela Apimec) Valor Investe